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Falha na Inclusão e Relato de Agressão em Escola Municipal de Sete Lagoas Acendem Alerta Vermelho
SETE LAGOAS (MG) – O que deveria ser espaço de acolhimento, cuidado e desenvolvimento integral tornou-se motivo de apreensão para uma família e acendeu um debate urgente sobre os limites e as responsabilidades da educação inclusiva no município. Criança, diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e matriculada no Maternal de uma escola municipal, teria sido vítima de agressão física por parte de uma cuidadora escolar.
O caso foi registrado junto à Polícia Militar e encaminhado ao MPSete Lagoas para apuração.
A família relata que, até então, a adaptação escolar era considerada positiva, desde o Maternal. Após o episódio, no entanto, houve resistência severa em retornar à escola, além de sinais claros de abalo emocional.
Outro ponto que chamou atenção foi a suposta quebra na rotina de cuidados: com a criança, conforme a rotina estabelecida, deveria ter sido ofertada horas antes — o que levanta questionamentos sobre a organização e o acompanhamento individualizado.

Casos não são isolados e o medo silencia famílias
A reportagem apurou que situações semelhantes não são casos isolados. Relatos extraoficiais indicam que outras famílias já enfrentaram episódios de despreparo, condutas inadequadas e até intervenções físicas desproporcionais no ambiente escolar.
O problema é que, muitas vezes, o medo de represálias, de exposição da criança ou de prejuízos na permanência escolar impede que denúncias sejam formalizadas.
O silêncio, nesse contexto, acaba perpetuando fragilidades estruturais.
Especialistas alertam que experiências traumáticas na primeira infância podem impactar diretamente o vínculo da criança com o ambiente escolar, gerando regressões comportamentais, dificuldades de aprendizagem, insegurança emocional e resistência à socialização.
Quando a escola deixa de ser espaço seguro, o prejuízo ultrapassa o episódio pontual e pode comprometer todo o percurso educacional.
Educação inclusiva exige preparo técnico e análise de perfil
O acompanhamento de crianças com TEA exige formação específica, estabilidade emocional, capacidade de manejo de crises e compreensão sobre desenvolvimento infantil.
A Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) determina, em seu artigo 18, que é dever de todos zelar pela dignidade da criança, colocando-a a salvo de qualquer tratamento violento, aterrorizante, vexatório ou constrangedor.
Já a Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência reforça a obrigação do poder público em garantir condições adequadas de acesso, permanência e aprendizagem com segurança e respeito.
Diante disso, especialistas defendem que o município avance na análise criteriosa de perfis profissionais para atuação no cuidado direto com crianças da educação inclusiva. Não se trata apenas de preencher vagas, mas de avaliar:
- equilíbrio emocional;
- capacidade de mediação de conflitos;
- formação específica em inclusão;
- histórico funcional;
- aptidão para o cuidado humanizado.
Cuidar de crianças neurodivergentes não é função meramente operacional — é responsabilidade técnica e ética.
Postura da gestão e necessidade de mudança estrutural.
De acordo com a família, a equipe gestora da unidade acolheu o relato com seriedade e adotou medidas imediatas, incluindo o afastamento preventivo da profissional citada e o envio de relatório à Secretaria Municipal de Educação.
A atitude foi considerada adequada no plano imediato. Contudo, o episódio evidencia que medidas reativas não substituem políticas preventivas estruturadas.
A pergunta que ecoa entre educadores, familiares e especialistas é clara: o município possui protocolos suficientes de seleção, capacitação contínua e supervisão técnica para quem atua na ponta mais sensível da rede?
Inclusão precisa sair do papel
A inclusão não pode ser apenas matrícula garantida. Ela exige investimento contínuo, acompanhamento técnico e fiscalização rigorosa.
Casos como este revelam que, quando o sistema falha, quem paga o preço são crianças em fase crucial de desenvolvimento.
A Agência RMBH continuará acompanhando os desdobramentos junto às autoridades competentes e à Secretaria Municipal de Educação, cobrando que a apuração resulte não apenas em responsabilização individual, mas em mudanças estruturais que assegurem proteção real às crianças da rede municipal.
Porque inclusão verdadeira não é discurso é prática cotidiana de cuidado, preparo e responsabilidade.