Julho das Pretas: apoio é importante, mas protagonismo é essencial
Julho é um mês de memória, resistência e reconhecimento da trajetória das mulheres negras. Mais do que uma programação comemorativa, o Julho das Pretas nos convida a refletir sobre o lugar que as mulheres negras ocupam na construção das políticas públicas, da cultura e da sociedade.
É gratificante perceber que, a cada ano, cresce o interesse de instituições públicas, conselhos, organizações e da sociedade civil em promover atividades voltadas à valorização dessa agenda. Esse envolvimento demonstra que o debate sobre igualdade racial vem conquistando mais espaço e sensibilizando diferentes setores.
"Ao mesmo tempo, o próprio fortalecimento dessa agenda nos leva a uma reflexão importante: quando realizamos ações sobre as mulheres negras, estamos garantindo que elas sejam, de fato, as protagonistas dessas iniciativas?"
Essa pergunta não busca estabelecer divisões nem desmerecer a contribuição de pessoas que apoiam a luta antirracista. Pelo contrário. Toda política pública precisa de aliados. No entanto, ser aliado também significa compreender que existem momentos em que o papel mais importante é criar condições para que as vozes historicamente silenciadas ocupem o centro da narrativa.
Em uma sociedade marcada pelo racismo estrutural, o protagonismo não se resume à presença de pessoas negras em fotografias ou na plateia.
Ele se traduz na valorização de seus conhecimentos, de suas experiências, de seus empreendimentos, de sua produção intelectual, artística e cultural.
Essa reflexão também alcança as atividades que envolvem identidade, estética, cultura, empreendedorismo e saberes tradicionais. Sempre que possível, vale perguntar: estamos valorizando e dando visibilidade às profissionais negras que atuam nesses campos? Estamos fortalecendo suas trajetórias e reconhecendo sua expertise?
Fazer essas perguntas não significa excluir ninguém. Significa reconhecer que o Julho das Pretas nasceu justamente para ampliar espaços de fala, de liderança e de reconhecimento das mulheres negras.
O protagonismo não é um privilégio; é uma forma de reparação histórica diante de séculos em que mulheres negras tiveram seus conhecimentos invisibilizados ou apropriados sem o devido reconhecimento.
A construção de uma sociedade antirracista passa por esse exercício permanente de reflexão. Não basta apoiar as pautas da igualdade racial. É preciso compartilhar espaços, reconhecer competências e garantir que as mulheres negras sejam protagonistas das histórias, das decisões e das políticas que dizem respeito às suas próprias vidas.
Que o Julho das Pretas continue crescendo em nosso município, fortalecendo parcerias e inspirando uma prática cada vez mais comprometida com o protagonismo, a equidade e a justiça racial.