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TCHÓ a Lenda viva
Por Administrador
Publicado em 30/03/2025 13:54
Quadro Quem Sou Eu

 

TCHÓ a lenda viva 

A Liberdade foi o seu ventre. A Coragem foi sua vida.

Ele nasce, em Sete Lagoas -MG, Geraldo Francisco Barbosa. Na militância religiosa, sindical, política, ecológica e partidária, ficou mundialmente conhecido como Tchó, o educador da fraternidade e igualdade.

Seus sonhos eram ações. Sonho por um mundo mais fraterno e mais feliz. Igualdade entre homens e mulheres. Compaixão pelo próximo. Para Tchó, esse é o “sonho” de Deus para a sua vida. Ele, o Pai, o criou para ser um jardim em meio aos “desertos” impostos aos mais frágeis pelas mãos brutas do sistema de homens de almas adormecidas, duras.

A sabedoria e o comprometimento com as causas humanitárias levaram Tchó a viver intensamente. Sua formação humana o fez encontrar uma grande mulher: Maria Camilotti, a gaúcha que fez de Minas Gerais a sua nova casa. Na comunhão de amor, viveram de mãos dadas e deram ao mundo filhos e netos marcados pela sensibilidade.

A trajetória de Tchó tem um marco. Aluno da primeira turma da Escola Profissional “Frederico Álvares”, mantida pela Central do Brasil – posteriormente Rede Ferroviária S/A – foi um dos três que chegaram ao fim do curso. Sobre um episódio importante “... é muito marcante o dia em que subi ao palco da escola Frederico Álvares com a banda de música tocando O CISNE BRANCO para receber meu diploma de CALDEIREIRO”.

Melhor do que falar sobre Tchó é deixar sua voz ecoar entre nós.

“Tenho de render muitas homenagens. Primeiro a minha mãe, dona Cota carinhosa e paciente e que sabia quantas varadas deveria me dar por alguma estrepolia, o senhor Aurélio que sabia aproveitar os materiais que lhe chegavam às mãos. Um prego achado na rua tinha muito valor para ele. O Leó que me convidou para um evento da JOC-Juventude Operária Católica e Antônio Emanuel da Silva, o Toca, que por sua vida e dedicação me mostrou os caminhos da JOC (Juventude Operária Católica).”

Com o coração na Igreja Católica e a militância na então JOC, Tchó despontou como liderança.

Sinônimo de classe trabalhadora, Tchó representou, em vários momentos da vida, as dificuldades dos companheiros e das companheiras, lutou pelos direitos dos(das) trabalhadores, e participou ativamente das manifestações pela conquista dos direitos reivindicados para todos e todas sem distinção..

No coração e na mente de Tchó, nada poderia substituir a vida digna de trabalhadores e trabalhadoras. Esta era a sua causa. Novamente despontava em sua jornada terrena a mística do trabalho que constrói vida plena e abundante para todos e todas.

Lembrava sempre a frase de Dom Pedro Casaldáliga.

 “No ventre de Maria, Jesus se tornou homem, na carpintaria de José, Jesus se torna classe trabalhadora.”

Ele próprio preferia ser conhecido e chamado por Tchó, apelido que ganhou na sua primeira participação na JOC (Juventude Operária Católica). “Meu nome Tchó, apelido, Geraldo Francisco Barbosa”. A JOC, movimento eclesial de jovens leigos, formou-o para uma vivência cristã, autêntica, de entrega total aos seus iguais; que fez dele um homem a serviço do outro cada segundo de um dia inteiro. Sua missão: pensar, agir e transformar o mundo em que vivemos. Com esse espírito de luta, dia após dia dava aos demais o seu testemunho de vida. A JOC era a extensão de sua casa, o compromisso com a causa dos mais pobres, a opção preferencial pelos trabalhadores e trabalhadoras. Pois foram nessas condições que Tchó foi liberado da Juventude Operária Católica. Viajou pelo mundo neste serviço. Conquistou inúmeros amigos que conservou até o fim; adquiriu conhecimentos. O sobrenome o revelava: Francisco, repleto de significados históricos a favor do bem. Logo, Tchó soube recolher, com sabedoria, toda a experiência positiva que as viagens e o trabalho lhe proporcionaram. Aditou-as a sua bagagem acadêmica para reproduzi-las em sala de aula e fora dela, na militância e na convivência social, política e familiar. Era admirável exemplo!

Com as mãos e mente, dedicou-se ao mais alto lugar que um ser humano pode chegar, ou seja, PROFESSOR. Tornou-se professor de Técnicas Agrícolas na rede pública estadual, lecionou Química na rede privada de ensino, mas ia bem mais longe, eis que ao ministrar as matérias agregava-lhes conhecimentos gerais, ensinando viver a vida.

Tchó foi membro fundador da ACO (Ação Católica Operária), uma JOC para adultos. Atuou como Coordenador e Conselheiro Nacional, Coordenador e Assistente Espiritual em nível regional. Participou da fundação da UTE (União dos Trabalhadores em Educação), que hoje é o Sind-UTE, da subsede de Sete Lagoas e da CUT (Central Única dos Trabalhadores).

 Filho da coragem, Tchó militou em todos os níveis, da base até a cúpula, sempre a oferecer o seu melhor em tempo integral. Forjado na liberdade, tornou-se ícone da esquerda e do campo progressista em Sete Lagoas, candidatando-se a vereador pelo Partido dos Trabalhadores. Para fazer campanha eleitoral, sua e dos companheiros, usava a criatividade e seus talentos porque o dinheiro era minguado. Sua casa se transformava numa espécie de comitê eleitoral, com a permissão e participação ativa de Maria, esposa e companheira de todas as horas e circunstâncias, ela também uma grande lutadora.

Ao lado da eterna companheira, Tchó aceitou outro desafio que o fez escrever capítulo significativo da História da República Federativa do Brasil: a Assembleia Nacional Constituinte. Era a década de 1980.

Tratava-se de um programa do governo estadual que envolvia os municípios. Tchó e a colega, professora Gema Galgani Macedo Lanza, representavam os municípios da região pela Delegacia Regional de Ensino (DRE). Foram realizadas visitas a cada município, culminando em um encontro estadual, que aconteceu durante sete dias, em Belo Horizonte, na Fundação João Pinheiro, com a presença de deputados federais e estaduais da região e, no último dia, do governador do Estado. Houve presença de lideranças de todo o estado.

Apresentou-se o relatório final, com propostas para a educação à Assembleia Nacional Constituinte. Realizou-se palestras, debates, apresentação de artistas de Minas Gerais no encerramento no Palácio das Artes.

Missão cumprida. As propostas populares dos profissionais da Educação chegaram aos constituintes, cuja responsabilidade seria escrever a primeira Constituição da República Federativa do Brasil após o fim da ditadura militar de 1964. Com a Constituição Cidadã, iniciava-se a redemocratização do Brasil.

Ferrenho defensor da Classe Trabalhadora e da categoria a que pertencia, ofertava tudo que tinha, não media esforços na luta por um mundo mais justo, mais humano, na ótica do Carpinteiro de Nazaré, Jesus Cristo.

TCHÓ

As origens de Geraldo Francisco Barbosa

 A seguir, declarações inéditas do homem nascido, batizado, crismado e casado com Maria Camilotti.

“Meu pai era vaqueiro na Fazenda do Paredão. Era de uma família pobre. A grande riqueza era o amor familiar. Eram dois irmãos e cinco irmãs. Eu puxei a fila depois vem: Maria Aparecida, a tia Lila, Maria Lúcia, a tia Luca, Vilma Sebastiana, a tia Visa, Maria das Graças, a tia Dadá, Guilherme José, o tio Gui, Marcos Aurélio, o tio Marquinho e Heloisa Helena, a tia Nega.”

De todos os irmãos e irmãs, Tchó revela quem era a mais próxima dele: “a tia Lila, Maria Aparecida.” Membro da Pastoral carcerária, comungava os ideais do irmão.

“Na Fazenda do Paredão e os vizinhos eram os “agregados” e os pequenos agricultores, lembro-me de uma família cujo sobrenome era PEIXE que tinha uma pequena horta”, escreveu Tchó.

E a infância? “Gostava das flores (dálias) do nosso quintal e das borboletas que apareciam. Brincava muito, mas assumia alguns serviços da casa. Uma vez tive de fazer quiabo e depois de picar fui lavar e quanto mais lavava mais babava. Fui à casa de D. Maria, nossa vizinha, e ele me falou que tinha de lavar antes de picar. A sorte é que os quiabos eram colhidos em casa mesmo”, recorda.

Os primeiros passos nos estudos ocorreram no Grupo Escolar “Dr. Arthur Bernardes”, em Sete Lagoas. Bom aluno? Sim, ao que tudo parece. Recorda Tchó que uma colega do terceiro ano falou com uma de suas tias, vizinha dela, que ele ia “tomar bomba.” O resultado foi o oposto. Tchó passou e sua colega, como era de praxe dizer naquele tempo, tomou bomba.

As notas do pequeno Geraldo Francisco Barbosa eram sempre na média, conforme pode ser constatado tanto em seus registros quanto na escola primária em que estudou.

Em casa, o hábito da leitura não era uma constante. De acordo com o próprio Tchó, o pai era ferroviário e nem sempre estava em casa e era de “pouca leitura”. A mãe gostava muito de ler, mas os afazeres da casa não lhe davam tempo. “No entanto, eu me lembro, dela me ensinando a ler. De noite, com a luz da lamparina eu lhe soletrava, por exemplo: B-O-R-B-O-L-E-T-A, e ela dizia, borboleta.” Boas recordações!

“Uma história e depois outra” era o livro preferido do pequeno estudante. O professor preferido? No primário foi a Dona Lúcia Victória Avelar, na Escola Profissional o instrutor José Afonso e no Ensino Médio o Professor Jean Baptiste Marius Rousset.

Tchó, um militante.

Membro da Igreja Católica, Apostólica, Romana, cristão convicto, cheio de fé, praticava no dia a dia a proposta da Ação Católica Operária, hoje Movimento de Trabalhadores Cristãos (MTC): “Fidelidade a Jesus Cristo e à Classe Trabalhadora”. Nisto pautou sua vida. Enquanto coordenador da ACO, durante a ditadura militar, corria riscos diários para manter a sua equipe atuante e quando viajava para o Rio de Janeiro, onde fica a sede do movimento. Não se podia informar por escrito a data da reunião. Na rodoviária aparecia um companheiro, a quem seguia silenciosamente. Uma vez errou a data, arriscou um telefonema: “Estou aqui.” E a resposta do outro lado: “É no p. sábado.” Comprou a passagem de volta sem sair da rodoviária. Engajou-se na luta sindical, em 1979. De novo enfrentou os militares, os espiões nas assembleias da categoria, foi perseguido pelo Prefeito Municipal, Marcelo de Vasconcelos, que grampeava seu telefone, enviava ameaças a ele e a sua família. A tudo Tchó enfrentou sem desanimar da luta, sem esmorecer na busca coletiva por um mundo mais justo, mais igualitário. Na militância política, enfrentou os desafios de candidaturas a vereador, sem recursos financeiros e sempre confrontado por adversários de fora e do próprio partido. Fiel aos princípios da predominância do coletivo sobre o individual, abriu mão de uma provável eleição a deputado estadual, para preencher uma chapa para deputado federal sem nenhuma probabilidade de ser eleito. Outra marca deste companheiro: o respeito pelas mulheres, a gentileza com elas e a compreensão de que, em todos os setores da vida, há lugar para as mulheres.

Foi profeta e semeador. Ele sabia que "debaixo do céu há tempo para tudo e momento certo para cada coisa: tempo para nascer e tempo para morrer...".

Chegada a sua hora, partiu serenamente, deixando um legado perene e muita saudade.

Texto escrito pela família e amigos de longa data do nosso Tchó por Caio Pacheco jornalista, as amigas Maristela, Antônia, Glória e Gemma Lanza em uma reunião entre amigos e familiares.

 

 

 

 

 

 

 

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