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VOCÊ ESPERA, MAS O CÂNCER NÃO!
Por Administrador
Publicado em 06/08/2025 14:52 • Atualizado 06/08/2025 14:56
Vozes Em Movimento: Notícias das Periferias

VOCÊ ESPERA, MAS O CÂNCER NÃO!

Sete Lagoas, Minas Gerais. Uma cidade com mais de 240 mil habitantes, que ostenta unidades de saúde em diversos bairros, mas onde uma simples coleta de exame preventivo se transforma em uma espera angustiante de até seis meses. Esse é o tempo que mulheres têm aguardado para receber o resultado do Papanicolau feito no SUS — um exame fundamental para a prevenção do câncer de colo do útero. A denúncia partiu de uma moradora que, cansada da espera e da falta de respostas, decidiu pagar pelo exame na rede particular. "Todo mundo está reclamando, e ninguém toma providência", desabafou.

Segundo informações repassadas nas próprias unidades, o motivo da demora seria a centralização dos exames em um único laboratório — possivelmente —, responsável por atender toda a rede municipal. Essa estrutura é claramente insuficiente para a demanda, revelando uma negligência inadmissível do poder público municipal.

Quando a prevenção vira omissão

A demora na entrega dos exames compromete completamente os princípios da Política Nacional de Prevenção e Controle do Câncer, que visa promover o diagnóstico precoce como ferramenta para reduzir mortes evitáveis. O exame de Papanicolau, quando realizado e processado dentro dos prazos clínicos, é capaz de identificar lesões precursoras com alto índice de cura. Mas em Sete Lagoas, esse cuidado tem sido tratado com descaso.

É importante ressaltar que o câncer de colo do útero é 100% evitável e tratável quando diagnosticado a tempo. O problema não é falta de tecnologia, nem de conhecimento. O problema é a falta de vontade política, de planejamento e de compromisso com a saúde das mulheres.

O futuro já chegou – mas não em Sete Lagoas

O Ministério da Saúde já iniciou a substituição gradual do Papanicolau pelo teste de DNA‑HPV, método mais eficaz, sensível e que exige menor frequência de realização. A nova política pública determina que o teste seja realizado pelo SUS a cada cinco anos, com mais precisão na identificação dos tipos oncogênicos do HPV — principal causador do câncer de colo do útero.

Estados como Pernambuco já iniciaram a implementação do novo modelo, e Minas Gerais consta na lista de expansão. No entanto, Sete Lagoas segue inerte, sem qualquer sinal de adaptação à nova política de rastreamento. A ausência de planejamento para a incorporação do DNA‑HPV evidencia a inércia da Secretaria Municipal de Saúde e a omissão do Conselho Municipal de Saúde, que deveria estar à frente da fiscalização e do monitoramento desse processo.

A quem interessa essa lentidão?

É preciso dizer com todas as letras: a negligência mata.

O atraso em um exame preventivo não é um problema menor ou burocrático. É uma falha grave que pode custar vidas. E se há uma fila de seis meses para o laudo de um exame, há também um acúmulo de riscos, de diagnósticos atrasados e de vidas em perigo.

Soluções urgentes e possíveis:

1. Descentralizar os exames citopatológicos, contratando novos laboratórios, inclusive por meio de consórcios intermunicipais, para dar vazão imediata à demanda reprimida.

2. Criar um plano municipal de transição para o teste de DNA‑HPV, garantindo capacitação das equipes, aquisição de insumos e adequação da rede de laboratórios.

3. Implementar controle e transparência pública, com prazos máximos estabelecidos para entrega dos exames, fiscalização rigorosa e responsabilização em caso de descumprimento contratual.

4. Atuar com o controle social, por meio de audiências públicas, envolvimento do Conselho Municipal de Saúde e participação direta da população na cobrança de melhorias.

Não é um favor, é um direito

A saúde da mulher não pode seguir sendo tratada como um tema secundário nas políticas públicas municipais. A negligência com exames preventivos é um retrato da desumanização do cuidado, especialmente com mulheres negras, periféricas e em situação de maior vulnerabilidade social.

É urgente que Sete Lagoas rompa com esse ciclo de descaso. A prevenção não pode mais ser adiada. A saúde não espera. E o câncer, infelizmente, também não.

By Rute Alves – Vozes em Movimento, Agência de Notícias RMBH

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